A praça da cidade e o santuário no morro.

         Foi essa frase que me acolheu em Monte Santo, cidade do sertão baiano que fica na região do semi-árido. Em minha primeira viagem, ou epopéia como queiram, pelo Sebrae, fui conhecer as ações do projeto Vencer Juntos. Um projeto em parceria com a Pastoral da Criança e a Fundação Grupo Esquel Brasil, que promove oportunidades de geração de renda através dos fundos solidários.

Confesso que entendia bem pouco da lógica dos fundos solidários e fui fazer uma pesquisa para não chegar lá completamente sem nada entender. A ideia é emprestar um recurso para um grupo que devolverá esse recurso inicial sem juros e sem correção monetária para um fundo que será utilizado para financiar outros empreendimentos. Sabendo disso, fui conhecer melhor a história de Monte Santo. 

O município é o que os baianos chamam de um lugar legal que só, possui aproximadamente 54 mil habitantes, dos quais 80% vive em área rural. Está localizado à 359 km de Salvador, mas o acesso é difícil e longo. 51% da renda do município deriva do comércio e serviços, apenas 9% da agropecuária, e 33% do setor público. O PIB do município cresce 3% ao ano.Pense, o município tem 3.285,40 km2 de extensão e já foi bem maior. Algumas regiões se emanciparam e viraram novas cidades. Um dos casos é Canudos. E se você pensou em Antônio Conselheiro acertou foi em cheio.

Monte Santo ficou famoso por ter sido o quartel-general do exército durante a Guerra de Canudos em 1897. Além disso, em 1784, foi lá que encontraram a Pedra do Bendegó, o maior meteorito já visto em solo brasileiro. A cidade abriga ainda um santuário que fica num morro, o calvário são 4 quilômetros para pagar promessas. A igreja de Nossa Senhora das Dores é bicentenária, já viu muitas estórias como a gravação do filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, e a minissérie o Pagador de Promessas.

Mas famas a parte, minha visita tinha intenção de conhecer o trabalho do projeto, e o que eu encontrei foi algo muito maior que minhas pesquisas prévias e papéis poderiam me mostrar. Fui recebida pelos técnicos do projeto, que são “liderados” por um simpático baiano de fala calma, chamado Luis Oliveira Costa, o maganguão da turma (também não sabia o que era, é uma espécie de abelha grande, a terminação ão, indica esse ser o macho, algo como o macho alfa). Luis é técnico desde a implantação na região, e foi logo afirmando que iríamos conversar melhor à noite, quando eu já tivesse visitado as comunidades que receberam os recursos. Mas mesmo assim, explicou-me que a intenção do projeto é emprestar o recurso, mas muito além disso, organizar as comunidades em grupos.

Funciona assim, para receber o recurso é preciso que a comunidade se reúna em um grupo, que deve ter no mínimo 5 famílias. Os grupos de Monte Santo são grandes e possuem em média 10 famílias. Essas famílias recebem informações sobre o projeto e devem construir junto com o técnico, diagnósticos sobre qual atividade comercial é melhor e mais viável. Cada grupo tem autonomia para escolher quanto quer receber e em que irá investir. Porém, o mais importante é explicar que o dinheiro deve ser devolvido, não porque eles vão contrair uma dívida, mas sim, porque é essa devolução que garantirá que outras famílias também poderão acessar o recurso. Caso eles não devolvam o dinheiro, outros não vão ter a mesma oportunidade. E finalizou assim: os bancos ficam loucos, não pedimos garantia, não cobramos juros, explicamos às pessoas a importância do crescimento e desenvolvimento delas. Não é dinheiro, é conhecimento. E me lembrou: “o conhecimento é um ganho de vida, ninguém nos tira”.

Rogério Guilhermino de Oliveira, outro técnico vira pra mim e diz: sim, é simples assim. Não tem juros, não tem garantia. Então começam a me explicar porque foi criada a ARESOL, Associação Regional dos Grupos Solidários de Geração de Renda. Todos são unânimes em me dizer que a ARESOL foi criada para representar melhor os grupos, para fazer com eles pudessem conversar melhor e escolher os seus caminhos. Dizem que dessa forma podem procurar novos parceiros e ter mais força. Na composição da ARESOL estão um representante de cada grupo que se reúnem 1 vez a cada dois meses, mas quando precisam se encontram mais.

À essa altura já estava eu maravilhada com a forma com que cada um se pronunciava, estávamos em reunião com alguns representantes do grupo, não apenas os técnicos do projeto e a cada frase minha certeza de que o projeto caminha em direção certa aumentava. Mas, como Luis já tinha me alertado, nossa conversa só poderia ser completa quando eu conhecesse os grupos.

E como ele tinha certeza. Como o meu post já está bem grandinho, e Monte Santo não é nem de longe um lugar pequeninho, que tal continuarmos nossa conversa no nosso próximo encontro? Quem sabe daí você entenda como a consciência e a solidariedade construíram um belo caminho para o desenvolvimento baiano…

Cecília Miranda, analista da Unidade de Desenvolvimento Territorial e gestora do convênio Vencer Juntos