Então vieram as visitas às comunidades atendidas, ou aos grupos beneficiados pelos projetos. Como você deve lembrar, Monte Santo é um município no qual a população não está concentrada na zona urbana, e sim, em áreas rurais, que eles chamam de comunidade. Eu tive a oportunidade de conhecer apenas duas: Tapera e Saguim.
Como a ordem dos fatores não altera o resultado de uma soma, vou começar pela minha visita à comunidade de Saguim, que foi à tarde. Depois de comer um churrasco de bode, um dos integrantes da comunidade que é da diretoria da ARESOL, José Raimundo Matos de Souza, e está fazendo o curso para se tornar técnico agropecuário me levou de carro.
E aqui cabe uma grande ressalva, Monte Santo é sede de uma Escola Família Agrícola (EFA) desde 1996. Pois é, eu também não tinha noção do que isso significa. A ideia surgiu do padre Abbé Granerau, na França, em 1935, como uma alternativa para o problema da educação rural. Foi trazida ao Brasil pelos jesuítas em 1968. Cada escola é gerenciada por uma associação formada de pais, alunos e de outros agricultores da região. A intenção é ofertar uma formação relacionada ao lugar onde a escola está instalada e ensinar as pessoas a promover desenvolvimento local. Quer entender melhor? Visite http://www.unefab.org.br
A comunidade do Saguim fica à 60 km do centro da cidade, e a estrada é de terra. Chegamos em uma casa de alvenaria que na verdade é um grande salão de reunião. Estavam nos esperando 14 pessoas. 13 criadores e a esposa de um deles, que faz parte da Associação dos agricultores da comunidade. Antes de começarmos a reunião, fizemos uma oração agradecendo a Deus minha visita e pedindo que chuva voltasse a cair. A seca esse ano está muito brava, faz quase um ano e meio que não chove. Quase todos os criadores estavam de boné, e retiraram para se apresentarem a mim.
José começou explicando que o grupo se reuniu em julho de 2008, e que passaram 7 meses mais ou menos escolhendo como e quanto iriam usar e em quanto tempo devolveriam o recurso ao fundo. 16 famílias participaram, 14 compraram animais e 2 participaram apenas da compra da forrageira (uma máquina de fazer ração para os bichos). Dona Agripina me disse que comprou 5 animais e hoje depois de já ter vendidos alguns, comido outros e perdido alguns para morte, possui 13 cabeças. Eles me explicaram que os técnicos os ajudaram a escolher qual criação optar. Fizeram um diagnóstico e perceberam que a melhor solução era optar por caprinos e ovinos, que são mais resistentes e mais fáceis de lidar que bovinos, suínos ou aves. O grupo pegou 12 mil reais, já devolveu metade, mas devido às secas e outras ações conjuntas, quiseram fazer outra retirada e pegaram a metade de volta. Mas agora já estão devolvendo o recurso do fundo. Em maio devem devolver 2 mil reais.
Dona Agripina me explicou que é importante ter que devolver o recurso, pois “nos ensina a trabalhar direito e ter compromisso para que outras pessoas possam receber a mesma oportunidade”. Então, Dona Jandira, que é mulher de um criador, e irmã do José, me explicou que o grupo é importante, pois os leva a pensar no coletivo. Mesmo que cada um crie seus animais em suas propriedades, eles precisam decidir juntos o que farão com o dinheiro, quais materiais devem comprar. O grupo se reúne pelo menos 1 vez por mês, quando são visitados pelo técnico do programa. Elesandra Ribeiro, técnica em agropecuária, dá aulas de manejo sanitário, explica como combater a seca e os ajuda vacinar. Dona Jandira diz que o conhecimento técnico melhorou a produção e os fez entender melhor como trabalhar com os animais. Zacarias de Souza, presidente da associação, me falou que o grupo deu força à associação e me disse que, hoje, têm uma área comum para criar os bichos que está sendo preparada, me explicou que quando precisam arrumar alguma coisa fazem um mutirão e se ajudam. E assim termina a reunião.
Dona Jandira se oferece para me mostrar a área comum e o poço de água doce, que está garantindo a água dos animais na seca. (Por conta de um projeto de governo todas as casas da comunidade possuem cisternas, e por isso, não usam a água do poço para consumo humano.) Vamos andando e ela me conta que esse é um poço novo, pois o antigo, a empresa governamental furou e colocou canos de cobre, como a água era meio salobra, os canos entupiram e os técnicos não conseguem mais ajustá-lo. O novo foi furado com a máquina que a associação comprou com outros grupos e tem desconto para fazê-lo. São 60 reais por metro quadrado ao invés de 90. E afirma, “se nós não tivéssemos nos ajuntados, não conseguiríamos, temos mais noção da força de possuímos juntos, podemos cobrar dos técnicos, sabemos que existem pessoas ao nosso lado, e ainda encontramos água doce.” Nesse poço os canos são de plástico.
Enquanto andamos, ela me fala da importância da forrageira, me diz que a técnica ensinou-os que não precisam mais comprar ração, que podem fazer e complementar com as plantas da caatinga. E me pede para olhar em volta, fala que as plantas que ali estão são muito ricas e eram subutilizadas. E afirma que não devo me enganar, alguns não aceitam a mudança. Ainda compram ração porque não acreditam no conhecimento. Então, me pergunta se vai me ver na televisão, eu respondo que não sou artista, apenas uma técnica do Sebrae. Ela ri, e me responde que não vê novelas. Assiste o canal Futura, o canal Rural e assim recolhe conhecimento. Fala que antigamente seu marido colocava fogo em tudo e cortava muitas árvores, mas hoje em dia não deixa que cortem nada e fogo, nem pensar. Dona Jandira me explica que o mundo está em constantes mudanças, mas não são todos que conseguem entender isso, ficam parados. Olha para mim dizendo que o mundo anda muito e você não deve ficar parado. “Quando temos “campressão” das coisas, conseguimos acompanhar as mudanças.”
Tentando conter o meu choro de felicidade em ver ela me envolver de palavras de sabedoria, pergunto se ela tem filhos, e ela me responde: “sou até avó”. Pergunto se eles moram lá e ela me explica que “essa desgraça de São Paulo leva gente daqui”, para um pouco e completa: “leva não, levava, hoje por causa do projeto as pessoas não vão mais e estão até voltando”. Explica-me que nunca foi lá, mas acha que a vida no sertão é muito melhor, as casas são maiores e melhores, e apesar de não ter tecnologia, a vida é mais digna. (e pessoal, se isso não é desenvolvimento local, minhas referências estão todas erradas). Fala com orgulho que por conta das ações do Vencer Juntos, muitos entenderam a benção que é a caatinga, que eles podem usar a sua terra como sustento.
Bem, nessa hora eu estava mesmo com o choro preso (você deve estar pensando, “ou você é técnica, imparcialidade oras”, mas me perdoem, contive as lágrimas). Terminamos a caminhada e ela olhou pro céu e viu nuvens coloridas, “isso significa que vai chover esses dias, você nos trouxe boa sorte”.
Hoje Rogério me ligou: “Cecília, hoje amanheceu chovendo, fraquinho, mas chuva boa.”
Cecília Miranda, analista da Unidade de Desenvolvimento Territorial e gestora do convênio Vencer Juntos







